Justiça informacional e justiça climática para refugiados climáticos em tempos de Antropoceno

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5380/dma.v67i.98748

Palavras-chave:

refugiados climáticos, justiça informacional, justiça climática, Antropoceno, emergência climática

Resumo

O artigo analisa as implicações da ausência de reconhecimento jurídico da categoria de refugiados climáticos, articulando este debate às dimensões da justiça climática e informacional. Parte-se da contextualização desse fenômeno no marco das múltiplas crises do Antropoceno, destacando a vulnerabilidade agravada das populações do Sul Global – historicamente menos responsáveis pelo aquecimento global, mas desproporcionalmente afetadas por seus impactos. O estudo examina os obstáculos históricos, políticos e jurídicos que dificultam o reconhecimento dos refugiados climáticos como sujeitos de direito, evidenciando as assimetrias de poder subjacentes à negação dessa categoria. A metodologia baseia-se em uma revisão bibliográfica crítica, que fundamenta os conceitos de justiça climática e informacional e analisa suas intersecções. A partir desse referencial, argumenta-se que o acesso à informação, à comunicação e ao reconhecimento internacional constitui um elemento central na luta pela justiça climática, sendo essencial tanto para a proteção dos direitos desses sujeitos quanto para a formulação de políticas de adaptação e reparação. Constata-se que, embora normativas nacionais e internacionais reconheçam o deslocamento forçado como estratégia de adaptação, persiste um vazio jurídico específico. Esse vazio compromete não apenas a garantia de direitos, mas também o acesso a informações estratégicas para a sobrevivência, o apoio humanitário e a circulação de dados essenciais entre pessoas em situação de deslocamento forçado. Ao final, o artigo sustenta que o reconhecimento formal dos refugiados climáticos é condição fundamental para a efetivação de sua cidadania plena e para a construção de respostas justas e solidárias à crise climática global.

Biografia do Autor

Vanessa Ferreira Rodrigues Pereira, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Possui graduação em Biblioteconomia pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (2015). Mestre em Ciência da Informação pelo IBICT (2025).

Áreas de estudo: refugiados climáticos, mudanças climáticas, aquecimento global, justiça informacional, justiça ambiental e justiça climática.

Liz-Rejane Issberner, Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict)

Pesquisadora titular do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT). Professora do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, no âmbito do convênio IBICT/UFRJ. Pós-doutorado no Institut de Recherche pour le Développement (IRD-Paris) no Programa Estágio Sênior no Exterior da CAPES. Doutorado e Mestrado em Engenharia de Produção pela COPPE/Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na área de Inovação Tecnológica e Organização Industrial. Pesquisadora visitante no centro de inovação do Science Policy Research Unit da Universidade de Sussex, Reino Unido. Graduação em Economia pela Faculdade de Economia e Administração da UFRJ. Coordenadora-Geral de Indicadores do Ministério de Ciência e Tecnologia entre 2008 e 2009. Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação-IBICT/UFRJ no biênio 2013/2014. Pesquisadora e líder do grupo de pesquisa ECOINFO - ECOLOGIA, INFORMAÇÃO E INOVAÇÃO. Desenvolve estudos e pesquisas nas áreas de: A crise ambiental sob a perspectiva histórica, ética e cultural da relação homem-natureza. O Antropoceno. Desinformação, negacionismo científico e salvacionismo tecnológico. Neoextrativismo e a Geopolítica do conhecimento. (De)colonialidade do saber do poder e do ser. Agroecologia e o agronegócio. Tecnificação e mercantilização da ciência. Ecoinovações. Economia circular.

Referências

Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados. (1951). Convenção relativa ao estatuto dos refugiados. https://www.acnur.org/fileadmin/Documentos/portugues/BDL/Convencao_relativa_ao_Estatuto_dos_Refugiados.pdf

Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados. (2020). A mudança climática é a crise definidora de nosso tempo e impacta também os refugiados. https://www.acnur.org/br/noticias/comunicados-imprensa/mudanca-climatica-e-crise-de-nosso-tempo-e-impacta-tambem-os

Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados. (2024a). Mitos e fatos sobre mudanças climáticas e deslocamento humano. https://www.acnur.org/portugues/2024/05/10/mitos-e-fatos-sobre-mudancas-climaticas-e-deslocamento-humano/

Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados. (2024b). Refugiados. https://www.acnur.org/br/sobre-o-acnur/quem-ajudamos/refugiados

Acselrad, H. (2002). Justiça ambiental e construção social do risco. Desenvolvimento e Meio Ambiente, 5, 49–60. https://doi.org/10.5380/dma.v5i0.22116

Acselrad, H., Herculano, S., & Pádua, J. A. (2004). Justiça ambiental e cidadania. Relume Dumará.

Aliança Brasileira pela Cultura Oceânica. (2024). 2024: O ano mais quente da história (Série Brasil em transformação: O impacto da crise climática – Caderno Técnico 1). https://maredeciencia.eco.br/wp-content/uploads/2024/12/Brasil-em-transformacao-1-2024-o-ano-mais-quente-da-historia.pdf

Bourdieu, P. (2004). O poder simbólico. Bertrand Brasil.

Bowen, G. A. (2009). Document analysis as a qualitative research method. Qualitative Research Journal, 9(2), 27–40. https://doi.org/10.3316/QRJ0902027

Bravo, P. G. S. (2020). Amenazas de cambio climático, métricas de mitigación y adaptación en ciudades de América Latina y el Caribe. CEPAL.

Brown, W. (2019). Nas ruínas do neoliberalismo: A ascensão da política antidemocrática no Ocidente. Politeia.

Butcher, M. P. (2009). At the foundations of information justice. Ethics and Information Technology, 11(1), 57–69. https://doi.org/10.1007/s10676-009-9181-2

Carbon Trade Watch. (2004). Climate justice now: The Durban Declaration on Carbon Trading.

Cavalieri, S. (2020). Direitos da natureza: A emergência de uma nova categoria jurídica. Revista de Direito Internacional, 17(2), 233–254. https://doi.org/10.5102/rdi.v17i2.6822

Cellard, A. (2008). A análise documental. In J. Poupart, J.-P. Deslauriers, L.-H. Groulx, et al. (Orgs.), A pesquisa qualitativa: Enfoques epistemológicos e metodológicos (pp. 295–316). Vozes.

Chakrabarty, D. (2018). Anthropocene time. History and Theory, 57(1), 5–32. https://doi.org/10.1111/hith.12044

Collins, P. H. (2017). Interseccionalidade como teoria social crítica. Boitempo.

Crenshaw, K. (1991). Mapping the margins: Intersectionality, identity politics, and violence against women of color. Stanford Law Review, 43(6), 1241–1299. https://doi.org/10.2307/1229039

Crutzen, P. J. (2002). Geology of mankind. Nature, 415(6867), 23. https://doi.org/10.1038/415023a

Denzin, N. K., & Lincoln, Y. S. (Orgs.). (2018). The SAGE handbook of qualitative research (5th ed.). SAGE.

Dun, O., & Gemenne, F. (2008). Defining “environmental migration”. Forced Migration Review, 31, 10–11. https://ro.uow.edu.au/sspapers/1407

El-Hinnawi, E. (1985). Environmental refugees. UNEP. https://digitallibrary.un.org/record/121267

Environmental Justice Foundation. (2009). No place like home: Where next for climate refugees. https://ejfoundation.org/reports/no-place-like-home-where-next-for-climate-refugees

Environmental Protection Agency. (2024). Environmental justice. https://www.epa.gov/environmentaljustice

Fairclough, N. (2001). Discurso e mudança social. Editora Universidade de Brasília.

Ferdinand, M. (2022). Uma ecologia decolonial: Pensar a partir do mundo caribenho. Ubu Editora.

Gemenne, F. (2007). Migrations et environnement: État des savoirs sur une relation méconnue. In GISTI, Quel statut pour les réfugiés environnementaux (pp. 5–12). https://www.gisti.org/IMG/pdf/je_08refugies-environnementaux.pdf

Gemenne, F. (2011). Why the numbers don’t add up: A review of estimates and predictions of people displaced by environmental changes. Global Environmental Change, 21(1), 41–49. https://doi.org/10.1016/j.gloenvcha.2011.09.005

Gil, A. C. (2019). Métodos e técnicas de pesquisa social. Atlas.

Grear, A. (2015). Deconstructing anthropos: A critical legal reflection on “anthropocentric” law and its environmental implications. In T. Hunter, J. Salzman, & D. Zaelke (Orgs.), International environmental law and the Global South (pp. 265–284). Cambridge University Press.

Gurumurthy, A., & Bharthur, D. (2020). The feminist principles of the internet: A critical framework. In F. J. Belli & N. Zingalles (Orgs.), Platform regulations (pp. 117–130). FGV.

Haraway, D., Tsing, A., & Mitman, G. (2019). Reflections on the Plantationocene. Edge Effects. https://edgeeffects.net/wp-content/uploads/2019/06/PlantationoceneReflections_Haraway_Tsing.pdf

Hiraide, L. A. (2022). Climate refugees: A useful concept? Politics, 43(2), 267–282. https://doi.org/10.1177/02633957221077257

Internal Displacement Monitoring Centre. (2025). Global report on internal displacement 2025. https://www.internal-displacement.org/global-report/grid2025/

International Federation of Red Cross and Red Crescent Societies. (2019). The cost of doing nothing. https://www.ifrc.org/documents/22677/the-cost-of-doing-nothing

Intergovernmental Panel on Climate Change. (1992). Climate change: The IPCC 1990 and 1992 assessments. https://www.ipcc.ch/site/assets/uploads/2018/05/ipcc_90_92_assessments_far_full_report.pdf

International Panel on the Information Environment. (2025). Facts, fakes, and climate science. https://www.ipie.info/research/sfp2025-2

Issberner, L.-R., & Léna, P. (2018). Anthropocene: The vital challenges of a scientific debate. The UNESCO Courier, 2(867), 7–11. https://www.unesco.org/en/articles/anthropocene-vital-challenges-scientific-debate-0

Johnson, J. A. (2018). Toward information justice. Springer.

Juncker, J.-C. (2015). State of the Union 2015: Time for honesty, unity and solidarity. https://ec.europa.eu/commission/presscorner/detail/en/SPEECH_15_5614

Kälin, W. (2010). Conceptualising climate-induced displacement. In J. McAdam (Org.), Climate change and displacement (pp. 81–103). Hart Publishing.

Kincheloe, J. L., & McLaren, P. (2002). Rethinking critical theory and qualitative research. In J. L. Kincheloe et al. (Eds.), Key works in critical pedagogy (pp. 285–326). Sense Publishers.

Latour, B. (2020). Diante de Gaia. Ubu Editora; Ateliê de Humanidades.

Léna, P., & Issberner, L.-R. (2017). Anthropocene in Brazil. In L.-R. Issberner & P. Léna (Orgs.), Brazil in the Anthropocene (pp. 1–17). Routledge.

Machado, I. J. R. (2020). Purity and mixture in the category of refuge in Brazil. Journal of Immigrant & Refugee Studies, 19(2), 157–169. https://doi.org/10.1080/15562948.2020.1747671

Martinez-Alier, J. (2011). Justice environnementale et décroissance économique. Écologie & Politique, 41, 125–141. https://doi.org/10.3917/ecopo.041.0125

Mathiesen, K. (2015). Informational justice. Library Trends, 64(2), 198–225. https://doi.org/10.1353/lib.2015.0044

Mayer, B. (2016). The concept of climate migration. Edward Elgar.

Milanez, B., & Fonseca, I. F. da. (2010). Justiça climática e eventos climáticos extremos. Boletim Regional, Urbano e Ambiental, 4, 93–101. https://repositorio.ipea.gov.br/bitstream/11058/5554/1/BRU_n4_justica.pdf

Minayo, M. C. de S. (2012). Análise qualitativa. Ciência & Saúde Coletiva, 17(3), 621–626. https://doi.org/10.1590/S1413-81232012000300007

Moore, J. W. (2015). Capitalism in the web of life. Verso.

Notre Dame Global Adaptation Initiative. (2024). Country index. https://gain.nd.edu/our-work/country-index/

Nixon, R. (2011). Slow violence and the environmentalism of the poor. Harvard University Press.

Oliveira, E. C. (2004). A proteção jurídica internacional dos deslocados internos. Revista do Instituto Brasileiro de Direitos Humanos, 5(5), 73–92. https://www.corteidh.or.cr/tablas/r26330.pdf

Organização das Nações Unidas. (1992). United Nations framework convention on climate change. https://unfccc.int

Organização das Nações Unidas. (2025). Relatório mostra 5 fatores empurrando milhões de pessoas para a pobreza. https://news.un.org/pt/story/2025/04/1847706

Our World in Data. (2022). CO₂ and greenhouse gas emissions. https://ourworldindata.org/co2-and-greenhouse-gas-emissions

Quintslr, M. M. M., Issberner, L.-R., & Silva, T. E. (2022). A justiça ambiental na produção de estatísticas oficiais. Revista EDICIC, 2(1), 1–21. https://doi.org/10.62758/re.v2i1.160

Ramos, E. P. (2011). Refugiados ambientais: Em busca de reconhecimento pelo direito internacional [Tese de doutorado, Universidade de São Paulo].

Ripple, W. J., Newsome, T. M., & Barnard, P. (2020). World scientists’ warning of a climate emergency. BioScience, 70(1), 8–12. https://doi.org/10.1093/biosci/biz088

Santos, B. de S. (2010). Para além do pensamento abissal. In B. de S. Santos & M. P. Meneses (Orgs.), Epistemologias do Sul (pp. 23–71). Almedina.

Schlosberg, D. (2007). Defining environmental justice. Oxford University Press.

Schlosberg, D., & Collins, L. B. (2014). From environmental to climate justice. Wiley Interdisciplinary Reviews: Climate Change, 5(3), 359–374. https://doi.org/10.1002/wcc.275

Sen, A. (1979). Equality of what? https://ophi.org.uk/sites/default/files/Sen-1979_Equality-of-What.pdf

Serres, M. (1990). Le contrat naturel. Flammarion.

UK Climate Change & Migration Coalition. (2012). Climate refugees: A useful concept? https://climatemigration.org.uk/wp-content/uploads/2012/11/Climate_and_migration_UKCCMC.pdf

Welzer, H. (2012). Climate wars. Polity Press.

Publicado

2026-04-23

Como Citar

Pereira, V. F. R., & Issberner, L.-R. (2026). Justiça informacional e justiça climática para refugiados climáticos em tempos de Antropoceno. Desenvolvimento E Meio Ambiente, 67, 53–75. https://doi.org/10.5380/dma.v67i.98748

Edição

Seção

Artigos