Peças e Engrenagens
A (In)Existência de um Sistema Africano de Proteção dos Direitos Humanos
DOI:
https://doi.org/10.5380/cg.v15i1.99980Palavras-chave:
Direitos Humanos, Sistema de Proteção Africano, Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos, Fragmentação Institucional, Pluralismo JurisdicionalResumo
O presente artigo indaga a existência de um sistema africano de proteção dos direitos humanos, problematizando, por meio de uma expressão retórica, a tensão entre a presença de “peças” normativas e institucionais, por um lado, e a ausência de “engrenagens” funcionais que assegurem a sua articulação, por outro. O objetivo consiste em avaliar se o arcabouço normativo e institucional africano constitui, de fato, um sistema integrado ou um arranjo fragmentado. Metodologicamente, recorre-se a uma abordagem qualitativa, sustentada na análise histórico-jurídica das instituições e dos instrumentos adotados desde a Organização da Unidade Africana (OUA) até à atual União Africana (UA). Argumenta-se que, na sua génese, não houve qualquer desígnio programático ou racionalidade normativa orientada para a construção de um sistema de proteção dos direitos humanos, a lógica sistémica não foi um objetivo inicial dos idealizadores da Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos. Tal fato gerou um resultado duplo: por um lado, uma densificação dos instrumentos normativos; por outro, uma proliferação de instâncias regionais e continentais marcada pelo défice de coordenação e pela duplicação e sobreposição de funções. Face a este diagnóstico de pluralismo jurisdicional fragmentado, o artigo conclui propondo vias de reforma institucional.
Referências
ALBUQUERQUE, Paulo Pinto de (coord.). Comentário da Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos e do Protocolo Adicional. Lisboa: Universidade Católica Editora, 2020.
ASSEMBLEIA GERAL DA ONU. Resolução 32/127, 1977 — Arranjos Regionais para a Promoção e Proteção dos Direitos Humanos. 1977. Disponível em: https://documents.un.org/doc/resolution/gen/nr0/320/10/pdf/nr032010.pdf?OpenElement. Acesso em: 12 nov. 2025.
AYENI, Victor Oluwasina. The African Human Rights Architecture: Reflections on the Instruments and Mechanisms within the African Human Rights System. Beijing Law Review, v. 10, p. 302-316, 2019. Disponível em: https://www.scirp.org/journal/paperinforcitation?paperid=91361. Acesso em: 3 de março de 2025.
BALDÉ, Aua. O sistema africano de direitos humanos e a experiência dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa. Lisboa: Universidade Católica Editora, 2017.
CAETANO, Flávio Crocce. Corte Africana dos Direitos Humanos e dos Povos. In: CAMPILONGO, Celso Fernandes; GONZAGA, Alvaro de Azevedo; FREIRE, André Luiz (coords.). Enciclopédia jurídica da PUC-SP. Tomo: Direitos Humanos. BALERA, Wagner; LIMA, Carolina Alves de Souza (coord. de tomo). 1. ed. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2017. Disponível em:https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/526/edicao-1/corte-africana-dos-direitos-humanos-e-dos-povos. Acesso em: 10 de março de 2025.
COMISSÃO AFRICANA DOS DIREITOS DO HOMEM E DOS POVOS (ACHPR). História da Carta Africana. [s.d.]. Disponível em: https://achpr.au.int/en/about/history. Acesso em: 12 nov. 2025.
COMISSÃO AFRICANA DOS DIREITOS DO HOMEM E DOS POVOS (ACHPR). Comissão Africana dos Direitos do Homem e dos Povos e Tribunal Africano dos Direitos do Homem e dos Povos Directrizes sobre a Submissão e Transferência dos Casos (3 de junho de 2025), 2025. Disponível em: https://achpr.au.int/pt/soft-law/submission-and-transfer-casesport. Acesso em: 25 nov. 2025.
Comparative Constitutions Project. CCP Rankings. 2016. Disponível em: https://comparativeconstitutionsproject.org/ccp-rankings/#2. Acesso em: 7 set. 2025.
DONNELLY, Jack. International Human Rights. 4ª edição. Boulder: Westview Press, 2013.
EBOBRAH, Solomon T. Courts of Regional Economic Communities in Africa and Human Rights Law. In: KADELBACH, Stefan; RENSMANN, Thilo; RIETER, Eva (eds.). Judging International Human Rights: Courts of General Jurisdiction as Human Rights Courts. Cham: Springer, 2019. p. 223–254
ECONOMIST INTELLIGENCE UNIT. Democracy Index 2023: Age of Conflict. Londres: The Economist Intelligence Unit, 2024. Disponível em: https://www.eiu.com/n/campaigns/democracy-index-2023/.
ELKINS, Zachary; GINSBURG, Tom; MELTON, James. Constitution Rankings – Comparative Constitutions Project. 2016. Disponível em: https://comparativeconstitutionsproject.org/ccp-rankings/#2. Acesso em: 18 de abril de 2025.
ELSTER, Jon. Peças e engrenagens das ciências sociais. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994.
FEFERBAUM, Marina. Proteção internacional dos direitos humanos: análise do sistema africano. São Paulo: Saraiva, 2012.
FRANCISCO, João. Direitos africanos dos Direitos Humanos – análise desde a perspectiva jurídico-histórica. Revista Brasileira de História & Ciências Sociais, v. 16, n. 32, p. 270-298, 2024. Disponível em: https://periodicos.furg.br/rbhcs/article/view/16565. Acesso em: 13 maio 2025.
GARRIDO, Rui. Pode o Tribunal Africano de Justiça e Direitos Humanos ser uma solução africana para problemas africanos?. Relações Internacionais, Lisboa, n. 54, p. 55–71, 2017. Disponível em: https://ipri.unl.pt/images/publicacoes/revista_ri/pdf/ri54/RI54_artg05_RG.pdf. Acesso em: 13 maio 2025
ISANGA, Joseph M. The Constitutive Act of the African Union, African Courts and the Protection of Human Rights: New Dispensation? Santa Clara Journal of International Law, v. 11, n. 2, p. 267-296, 2013. Disponível em: https://digitalcommons.law.scu.edu/scujil/vol11/iss2/1/. Acesso em: 22 março 2025.
KABUNDA, Mbuyi. O sistema normativo africano de direitos humanos. Relações Internacionais, n. 54, p. 45–54, 2017. Disponível em: https://www.scielo.pt/scielo.php?pid=S1645-91992017000200004&script=sci_arttext. Acesso em: 17 maio 2025.
KABUNDA BADI, Mbuyi. Derechos humanos en África: teorías y prácticas. Bilbau: Universidad de Deusto, 2000. Disponível em: https://biblioteca.corteidh.or.cr/tablas/R22801.pdf. 22 dezembro 2025.
KAGAME, Paul. Report on the Proposed Recommendations for the Institutional Reform of the African Union. 2017. Disponível em: https://au.int/en/documents/20170129/report-proposed-recommendations-institutional-reform-african-union. Acesso em: 27 nov. 2025.
KOUYATE, Siriman. La Charte de Kurukan Fuga. Atelier Regional de Concertation Entre Traditionalistes Mandingues et Communicateurs des Radios Rurales, 1998. Disponível em: https://www.humiliationstudies.org/documents/KaboreLaCharteDeKurukafuga.pdf. Acesso em: 12 nov. 2025.
MANGU, André Mbata B. The Changing Human Rights Landscape in Africa: Organization of African Unity, African Union, New Partnership for Africa’s Development and the African Court. Netherlands Quarterly of Human Rights, v. 23, p. 381-408, 2005. Disponível em: https://www.scirp.org/reference/referencespapers?referenceid=2475940. 22 janeiro 2025.
MUTUA, Makau. African human rights system: a critical evaluation. Human Development Occasional Papers, n. 15, 2000.
MUTUA, Makau. Human Rights: A Political and Cultural Critique. Berkeley: University of California Press, 2001.
NÓBREGA, Álvaro. A democracia em África. Janus 2010: anuário de relações exteriores. Lisboa: Observatório de Relações Exteriores / Universidade Autónoma de Lisboa, 2010. Disponível em: https://www.janusonline.pt/arquivo/popups2010/2010_3_2_7.pdf. Acesso em: 7 de Janeiro de 2025.
ORGANIZAÇÃO DA UNIDADE AFRICANA (OUA). About the African Union. [S.l.: s.n.], [s.d.]. Disponível em: https://au.int/en/overview. Acesso em: 23 nov. 2025.
ORGANIZAÇÃO DA UNIDADE AFRICANA (OUA). OUA Charter, [S.l.: s.n.], 1963. Disponível em: https://au.int/en/treaties/oau-charter-addis-ababa-25-may-1963. Acesso em: 12 nov. 2025.
ORGANIZAÇÕES DA SOCIEDADE CIVIL. Civil Society Organisations' Position Paper on AU Reform. 2024. Disponível em: https://www.the-isla.org/wp-content/uploads/2024/10/03-20240810-Civil-Society-Organisations-Position-Paper-on-AU-Reform.pdf. Acesso em: 27 nov. 2025.
OUGUERGOUZ, Fatsah. The African Charter on Human and Peoples' Rights: A Comprehensive Agenda for Human Dignity and Sustainable Democracy in Africa. The Hague: Martinus Nijhoff Publishers, 2003.
REFORMA DA UNIÃO AFRICANA: sumário para participação do Estado. 2024. Disponível em: https://www.the-isla.org/wp-content/uploads/2024/10/02-20240809-BRIEFING-NOTE-FOR-STATE-ENGAGEMENT.pdf Acesso em: 27 nov. 2025.
ROCHA, Julio Cesar de Sá da; BACIAO, Domingos Nhamboca Hale. O sistema africano de protecção de direitos humanos: uma análise crítica. INTER: Revista de Direito Internacional e Direitos Humanos, v. 3, n. 1, p. 1–22, 2020. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/inter/article/view/31448. Acesso em: 3 de março de 2025.
RODA, Arménio Alberto Rodrigues da. Entre a realidade e o simbolismo dos direitos humanos na África: uma análise do sistema regional africano de protecção aos direitos humanos. Revista Humanidades & Inovação, Palmas, v. 8, n. 52, p. 161–174, 2021. Disponível em: https://revista.unitins.br/index.php/humanidadeseinovacao/article/view/4860. Acesso em: 3 de março de 2025
SOUZA, Victor Martins de. A aljava e o arco: o que a África tem a dizer sobre direitos humanos – um estudo da Carta Mandinga. 2018. Dissertação (Mestrado) — Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2018. Disponível em: https://tede2.pucsp.br/handle/handle/21110. Acesso em: 3 de desembro de 2025.
TRIBUNAL AFRICANO DOS DIREITOS DO HOMEM E DOS POVOS (TADHP). Primeiro retiro conjunto dos juristas da Comissão Africana dos Direitos do Homem e dos Povos, do Tribunal Africano dos Direitos do Homem e dos Povos e do Comité Africano de Peritos em Direitos e Bem-Estar da Criança. Maputo, 2022. Disponível em: https://www.african-court.org/wpafc/primeiro-retiro-conjunto-dos-juristas-da-comissao-africana-dos-direitos-do-homem-e-dos-povos-do-tribunal-africano-dos-direitos-do-homem-e-dos-povos-e-do-comite-africano-de-peritoss-em-direitos-e-bem-e/?lang=pt-pt. Acesso em: 25 nov. 2025.
TUFA, Girma Gadisa. The African Court on Human and Peoples’ Rights: assessing its effectiveness. African Human Rights Yearbook, Pretoria, v. 8, p. 206–229, 2024. Disponível em: https://www.ahry.up.ac.za/tufa-gg. Acesso em: 3 de desembro de 2025.
UNIÃO AFRICANA. Protocolo sobre as Alterações ao Protocolo Relativo ao Estatuto do Tribunal Africano de Justiça e Direitos Humanos. 2014. Disponível em:
https://au.int/sites/default/files/treaties/36398-treaty-0045_-_protocol_on_amendments_to_the_protocol_on_the_statute_of_the_african_court_of_justice_and_human_rights_p.pdf. Acesso em: 27 nov. 2025.
UNIÃO AFRICANA. OAU/AU Treaties, Conventions, Protocols & Charters, [ca. 2025]. Disponível em: https://au.int/en/treaties/1164. Acesso em: 06 de maio de 2026.
VILJOEN, Frans; BAIMU, Enid. Courts for Africa: Considering the Co-Existence of the African Court on Human and Peoples’ Rights and the African Court of Justice. Netherlands Quarterly of Human Rights, v. 22, n. 2, p. 241–267, 2004. Disponível em: https://www.scirp.org/reference/referencespapers?referenceid=2475950. Acesso em: 3 de março de 2025.
VILJOEN, Frans. International human rights law in Africa. 2. ed. Oxford: Oxford University Press, 2012.
XAVIER, Mateus Fernandez. Forum shopping, fenômeno jurídico do cenário pós-Guerra Fria. Revista de Informação Legislativa, Brasília, v. 53, n. 210, p. 181–201, abr./jun. 2016. Disponível em: https://www2.senado.leg.br/bdsf/item/id/522905. Acesso em: 7 jun. 2025.
ZOUAPET, Apollin Koagne. From 'puzzling' to comprehensible and efficient: Reform proposals to the African human rights framework through a 'system' lens. African Human Rights Law Journal, v. 23, n. 1, p. 1–27, 2023. Disponível em: https://www.scielo.org.za/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1996-20962023000100002&lng=en&nrm=iso&tlng=en. Acesso em: 11 de dezembro de 2024.
Downloads
Publicado
Como Citar
Edição
Seção
Licença
Os editores da Conjuntura Global (ISSN 2317 – 6563) reservam-se o direito de adequar os textos submetidos ao padrão de formatação editorial da revista. Os artigos e resenhas assinados são de responsabilidade de seus autores, não expressando a opinião dos editores da Conjuntura Global.
Autores que publicam nesta revista concordam com os seguintes termos:
- Autores mantém os direitos autorais e concedem à revista o direito de primeira publicação, com o trabalho simultaneamente licenciado sob a Licença Creative Commons Attribution (CC BY 4.0), que permite o compartilhamento do trabalho com reconhecimento da autoria e publicação inicial nesta revista;
- Autores têm autorização para assumir contratos adicionais separadamente, para distribuição não-exclusiva da versão do trabalho publicada nesta revista (ex.: publicar em repositório institucional ou como capítulo de livro), com reconhecimento de autoria e publicação inicial nesta revista;
- A aprovação da produção implica automaticamente a autorização à Revista Conjuntura Global para encaminhamentos pertinentes junto às bases de dados de indexação de periódicos científicos.
