Ocupações urbanas: protesto, performatividade e reivindicações espaciais de propriedade
DOI:
https://doi.org/10.5380/rfdufpr.v71i1.103750Palavras-chave:
ocupações urbanas, propriedade, performatividade, direito e espaçoResumo
Este artigo examina a ocupação como instrumento de luta de movimentos de moradia, investigando as implicações de seu uso para as relações de propriedade, para o espaço e para os sujeitos envolvidos. Seu método baseia-se numa perspectiva teórico-situada, que parte da análise das ocupações do Movimento Sem Teto da Bahia no Centro Histórico de Salvador – com as quais a autora mantém uma relação de assessoria no âmbito do Projeto Canteiro Modelo de Conservação Salvador, parceria entre a Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Em diálogo com o campo da geografia jurídica crítica, recorre mais especificamente à leitura pós-estruturalista do conceito de performatividade, que ajuda a desnaturalizar práticas e normas sociais tidas como dadas, explorando o processo por meio do qual tomam forma. Constrói, assim, uma reflexão sobre as ocupações para além da ideia de que seriam apenas parte do repertório de ação de movimentos já estabelecidos, tentando compreendê-las não como um mero instrumento destacado que o movimento escolhe por sua eficácia, mas, antes, como algo conectado à própria constituição da luta dos movimentos, bem como ao espaço e às normas que o regulam. Examina a formação e as dinâmicas inter-relacionais do espaço, das normas, do protesto e dos sujeitos, investigando como todas essas esferas são afetadas pelo evento da ocupação. Nesse sentido, formulando a ocupação como uma forma de reivindicação espacial de propriedade, reflete sobre sua compatibilidade com a norma jurídica estatal.
Referências
ALFONSIN, Jacques Távora. A função social da posse como pressuposto de licitude ético-jurídica do acesso e da conservação do direito à terra. Revista de Direito Agrário, Brasília, ano 19, n. 18, p. 173-195, 2006.
AMADEO, Carolina. ‘Blackening’ the subject of property: the fight for the right to remain of Black residents of the Historic Centre of Salvador, Bahia, Brazil. 2026. Tese (Doutorado em Filosofia do Direito) – Birkbeck College, University of London, Londres, 2026.
AMADEO, Carolina; RIZZINI ANSARI, Moniza. O direito e as margens da cidade. In: COUTINHO, Diogo R. et al. (org.). Propriedades em transformação: expandindo a agenda de pesquisa. São Paulo: Blucher, 2021. v. 2. p. 29-54.
AUSTIN, John L. How to do things with words. Cambridge: Harvard University Press, 1962.
BAHIA. Tribunal de Justiça do Estado da Bahia. 8ª Vara da Fazenda Pública de Salvador. Ação de reintegração de posse. Processo nº 0016427-16.2007.8.05.0001. Salvador, 2007.
BHANDAR, Brenna. Colonial lives of property: law, land and racial regimes of ownership. Durham: Duke University Press, 2018.
BISPO DOS SANTOS, Antonio. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora: Piseagrama, 2023.
BLACKSTONE, William. Commentaries on the laws of England. 1766. v. 2.
BLOMLEY, Nicholas. Law, property, and the geography of violence: the frontier, the survey, and the grid. Annals of the Association of American Geographers, v. 93, n. 1, p. 121-141, 2003.
BLOMLEY, Nicholas. Performing property: making the world. The Canadian Journal of Law and Jurisprudence, v. 26, n. 1, p. 23-48, 2013.
BOULOS, Guilherme Castro. Por que ocupamos? – uma introdução à luta dos sem-teto. 3. ed. São Paulo: Autonomia Literária, 2015.
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.
BRASIL. Lei nº 10.257, de 10 de julho de 2001. Regulamenta os arts. 182 e 183 da Constituição Federal, estabelece diretrizes gerais da política urbana e dá outras providências. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 11 jul. 2001.
BRASIL. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 11 jan. 2002.
BUTLER, Judith. Bodies that matter. Abingdon: Routledge, 1993.
BUTLER, Judith. Gender trouble: feminism and the subversion of identity. New York: Routledge, 1990.
BUTLER, Judith. Notes toward a performative theory of assembly. Cambridge: Harvard University Press, 2015.
BUTLER, Judith; ATHANASIOU, Athena. Dispossession: the performative in the political. Cambridge: Polity Press, 2013.
CLOUX, Rafael F. MSTS: a trajetória do Movimento dos Sem-Teto de Salvador. Salvador: Livros, 2008.
COOPER, Davina. Towards an adventurous institutional politics: the prefigurative ‘as if’ and the reposing of what’s real. The Sociological Review, v. 68, n. 5, p. 893-916, 2020.
DERRIDA, Jacques. Signature event context. In: GRAFF, Gerald (org.). Limited Inc. Evanston: Northwestern University Press, 1977.
EARLE, Lucy. From insurgent to transgressive citizenship: housing, social movements and the politics of rights in São Paulo. Journal of Latin American Studies, v. 44, n. 1, p. 97-126, 2012.
EU moro aqui. São Paulo: Habitat para a Humanidade Brasil. Direção: Débora Britto. [S. l.: s. n.], 2024. 1 vídeo (35 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=eTiCwWhagXA. Acesso em: 14 jul. 2025.
FERREIRA DA SILVA, Denise. Toward a global idea of race. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2007.
FERREIRA DA SILVA, Denise. Unpayable debt. London: Sternberg Press, 2022.
FERREIRA, Apoena da Silva. O processo de embranquecimento urbano e resistência negra no Centro Histórico de Salvador. 2024. Dissertação (Mestrado em Processos Urbanos Contemporâneos) – Faculdade de Arquitetura, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2024.
FIGUEIREDO, Glória Cecília dos Santos; ESTÉVEZ, Brais; ROSA, Thaís Troncon. The Black city: modernisation and fugitivities in Salvador, Bahia, Brazil. Radical Housing Journal, v. 2, n. 2, p. 55-82, 2020.
GRAY, Kevin. Property in thin air. The Cambridge Law Journal, v. 50, n. 2, p. 252-307, 1991.
GREGSON, Nicky; ROSE, Gillian. Taking Butler elsewhere: performativities, spatialities, and subjectivities. In: GLASS, Michael E.; ROSE-REDWOOD, Reuben (org.). Performativity, politics, and the production of social space. Abingdon: Routledge, 2014.
HARAWAY, Donna. Situated knowledges: the science question in feminism and the privilege of partial perspective. Feminist Studies, v. 14, n. 3, p. 575-599, 1988.
HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Elements of the philosophy of right. Cambridge: Cambridge University Press, 1991 [1820].
HOHFELD, Wesley Newcomb. Fundamental legal conceptions as applied in judicial reasoning. Yale Law Journal, v. 23, p. 16-59, 1913.
HOOKS, bell. Yearning: race, gender, and cultural politics. London: Turnaround, 1990.
KEENAN, Sarah. Smoke, curtains and mirrors: the production of race through time and title registration. Law and Critique, v. 28, n. 1, p. 87-108, 2017.
KEENAN, Sarah. Subversive property: law and the production of spaces of belonging. Abingdon: Routledge, 2015.
LEVY, Charmain. Brazilian urban popular movements: the 1997 mobilization of the inner-city slum movement in São Paulo. Studies in Political Economy, v. 85, n. 1, p. 35-68, 2010.
MACPHERSON, Crawford B. The meaning of property. In: MACPHERSON, Crawford B. (ed.). Property: mainstream and critical positions. Toronto: University of Toronto Press, 1978. p. 1-14.
MARICATO, Erminia. A terra é um nó, na sociedade brasileira… também nas cidades. Cultura Vozes, v. 93, n. 6, p. 7-22, 1999.
MASSEY, Doreen. For space. London: Sage Publications, 2005.
MILAGRES, Marcelo de Oliveira. Posse: direito real subversivo. Revista da Faculdade de Direito da UFMG, Belo Horizonte, n. 72, p. 401-424, jan./jun. 2018.
MILANO, Giovanna Bonilha. Conflitos fundiários urbanos e poder judiciário: decisões jurisdicionais na produção da segregação socioespacial. Tese (Doutorado em Direito) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2016.
MONTOYA URIARTE, Urpi. Entra em beco, sai em beco: formas de habitar o centro: Salvador e Lisboa. Salvador: Edufba, 2019.
MOVIMENTO DOS SEM TETO DA BAHIA. A luta pela cidade e a construção das comunidades do bem viver. Salvador: MSTB: Fundação Rosa Luxemburgo, 2016.
O BRASIL sem chão e a terra firme dos sem-teto. Direção: Susana Jeha. S. l.: Estúdio Fluxo, 2017. 1 vídeo (65 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=QdRm0MGriE0. Acesso em: 20 maio 2024.
OCCUPYING Brazil. Direção: Daniel A. Rubio. Doha: Al Jazeera, 2014. 1 vídeo (25 min). Disponível em: https://www.aljazeera.com/programmes/viewfinder/latinamerica2014/2014/04/occupying-brazil-201446121644533111.html. Acesso em: 14 jul. 2025.
OCUPAR e resistir: o coração do Centro Histórico. Direção: André Rupp. S. l.: Perícia Popular, 2023. 1 vídeo (16 min). Disponível em: https://vimeo.com/906365808. Acesso em: 13 ago. 2025.
PEÑALVER, Eduardo; KATYAL, Sonia. Property outlaws: how squatters, pirates, and protesters improve the law of ownership. New Haven: Yale University Press, 2010.
PHILIPPOPOULOS-MIHALOPOULOS, Andreas. Law’s spatial turn: geography, justice and a certain fear of space. Law, Culture and the Humanities, v. 7, n. 2, p. 187-202, 2011.
POTTAGE, Alain. The measure of land. The Modern Law Review, v. 57, n. 3, p. 361-384, 1994.
RADIN, Margaret J. Reinterpreting property. Chicago: University of Chicago Press, 1993.
ROLNIK, Raquel. Urban warfare: housing under the empire of finance. London: Verso, 2019.
ROSE, Carol M. Property and persuasion: essays on the history, theory, and rhetoric of ownership. New Perspectives on Law, Culture, and Society. Oxford: Westview Press, 1994.
ROSE-REDWOOD, Reuben; GLASS, Michael E. Introduction: geographies of performativity. In: GLASS, Michael E.; ROSE-REDWOOD, Reuben (org.). Performativity, politics, and the production of social space. Abingdon: Routledge, 2014.
SALVADOR. Lei nº 9.215, de 19 de maio de 2017. Institui o Programa de Incentivo à Restauração e Recuperação de Imóveis do Centro Antigo de Salvador – PROGRAMA REVITALIZAR, e dá outras providências. Diário Oficial do Município, Salvador, 22 maio 2017.
SANTOS, Elisabete et al. Atlas sobre o direito de morar em Salvador. Salvador: Edufba, 2012.
SANTOS, Milton. Espaço e método. São Paulo: EDUSP, 2014.
SANTOS, Milton. O centro da cidade de Salvador. 2. ed. São Paulo: EDUSP, 2012.
SANTOS, Vitor Fonseca. O silente despejo dos ocupantes populares do centro. 2017. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2017.
SIGAUD, Lygia. As condições de possibilidade das ocupações de terra. Tempo Social, v. 17, n. 1, p. 255-280, 2005.
SIGAUD, Lygia; ERNANDEZ, Marcelo; ROSA, Marcelo C. Ocupações e acampamentos: sociogênese das mobilizações por reforma agrária no Brasil. Rio de Janeiro: Garamond, 2010.
SIMÕES, Guilherme; CAMPOS, Marcos; RAFAEL, Rud. MTST 20 anos de história: luta, organização e esperança nas periferias do Brasil. São Paulo: Autonomia Literária, 2017.
SOUZA, Ângela Gordilho. Favelas, invasões e ocupações coletivas nas grandes cidades brasileiras – (Re)Qualificando a questão para Salvador- BA. Cadernos Metrópole, n. 5, p. 63-89, 2012.
STEVENS, Jeroen. Occupied city: Hotel Cambridge and central São Paulo between urban decay and resurrection. In: CAIRNS, Georgios; ARTÓPOULOS, Georgios; DAY, Kirsten (org.). From conflict to inclusion in housing. London: UCL Press, 2017.
TORRES, Marcos Alcino de Azevedo. A propriedade e a posse: um confronto em torno da função social. 2. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2010.
TRINDADE, Thiago Aparecido. Ampliando o debate sobre a participação política e a construção democrática: o movimento de moradia e as ocupações de imóveis ociosos no centro da cidade de São Paulo. 2014. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade de Campinas, Campinas, 2014.
VIEIRA, Sérvio Túlio Santos. Reflexões acerca da posse como direito subjetivo real na Era Hipermoderna e seus consectários. Revista de Direito do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, n. 128, p. 269-330, fev./ago. 2026.
VOLPINI, Alyssa; SANTIAGO, Beatriz; PINHEIRO, Isaque. Articular para mobilizar: práticas de assessoria técnica junto à Articulação do Centro Antigo de Salvador. 2024. Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização em Assistência Técnica, Habitação e Direito à Cidade) – Faculdade de Arquitetura, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2024.
WENDEL, Bruno. BDM tomou conta do Pelô: o que faz a facção manter o domínio do maior cartão-postal da Bahia? Correio 24 Horas Online, 20 maio 2024a. Disponível em: https://www.correio24horas.com.br/minha-bahia/bdm-tomou-conta-do-pelo-o-que-faz-a-faccao-manter-o-dominio-do-maior-cartao-postal-da-bahia--0524. Acesso em: 19 ago. 2025.
WENDEL, Bruno. Guerra na Bahia: 20 facções disputam o tráfico de drogas e levam medo à população. Correio 24 Horas Online, 1 jul. 2024b. Disponível em: https://www.correio24horas.com.br/minha-bahia/guerra-na-bahia--20-faccoes-disputam-o-trafico-de-drogas-e-levam-medo-a-populacao-0724. Acesso em: 19 ago. 2024.
ZAVASCKI, Teori Albino. A tutela da posse na Constituição e no projeto do novo Código Civil. In: MARTINS-COSTA, Judith (org.). A reconstrução do direito privado. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2002.
Downloads
Publicado
Como Citar
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2026 Carolina Amadeo

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
Os autores que publicam na Revista concordam com os seguintes termos:
– os autores mantêm os direitos autorais e transferem à Revista o direito de primeira publicação, com o trabalho licenciado sob a Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional, permitido o compartilhamento do trabalho desde que com reconhecimento da autoria e da publicação inicial na Revista;
– os reutilizadores devem dar o crédito apropriado, prover um link para a licença e indicar se mudanças foram feitas, mas de nenhuma maneira que sugira que o licenciante apoia o reutilizador ou a reutilização;
– os reutilizadores não podem aplicar restrições adicionais, termos jurídicos ou medidas de caráter tecnológico que restrinjam legalmente outros de fazerem algo que a licença permita;
– os reutilizadores devem atribuir crédito ao criador e permitir que outros distribuam, remixem, adaptem e desenvolvam o material em qualquer meio ou formato, exclusivamente para fins não comerciais e desde que sob os mesmos termos, respeitados a Lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998, e outros normativos vigentes.
