VIOLÊNCIA SEXUAL E INTERSECCIONALIDADES – UMA BREVE CRÍTICA À LUZ DO FEMINISMO NEGRO
DOI:
https://doi.org/10.5380/diver.v17i1.94626Resumo
A violência sexual constitui fenômenos complexos eenvolve considerar a interseccionalidade de raça-classe-gênero. Destaca-se a questão do gênero como uma categoria de análise histórica: a violência sexual é uma violência de gênero. Tal afirmativa não está representada somente na constatação de que a maioria das pessoas violadas são mulheres, mas, no reconhecimento de um sistema de dominação patriarcal: racista, capitalista e sexista. Nesse sentido, torna-se indiscutível a representatividade do feminismo negro na construção de práticas interseccionais, afirmativas, por uma sociedade mais igualitária e que de fato possa libertar todas as mulheres, todas as corporeidades. As reflexões deste artigo representam um recorte de uma dissertação de mestrado, que se movimentou em torno da história e aplicabilidade de um protocolo hospitalar para atendimento às pessoas em situação de violência sexual. Por meio de entrevistas fenomenológicas individuais, direcionadas a nove profissionais, foi possível constatar a invisibilidade dos corpos femininos adultos, ainda mais demarcado em relação às mulheres negras. Embora o protocolo encontre-se regido pela Política Nacional de Humanização, as situações de violência tendem a revitimização, evidenciando a necessidade de transgressão da ordem vigente, bem representada pela educação feminista.
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