Fazendo parentes entre os Baniwa: reflexões sobre as relações em campo
DOI:
https://doi.org/10.5380/cra.v20i1.65946Keywords:
Baniwa, Noroeste Amazônico, Trabalho de campo, Parentesco analógicoAbstract
Este artigo é uma investigação de algumas das relações possíveis entre antropólogos e seus anfitriões indígenas, considerando o parentesco como abordagem analítica pertinente. Para tanto, parto da minha experiência etnográfica entre os Baniwa, povo de língua arawak que vive no Noroeste Amazônico, descrevendo o vínculo que se estabeleceu entre mim e o casal Júlio e Maria, meus principais anfitriões. Procuro compreender como esta relação indicia diferentes posições dentro do campo do parentesco, sem-pre reversíveis, caracterizando modos dinâmicos de fazer parentes. Seguindo a ideia de um parentesco analógico (Wagner, 1977), demonstrarei como um antropólogo branco e seus anfitriões baniwa se situam em uma cadeia de analogias: brancos e indígenas, patrões e empregados, pais e filhos (adotivos, “bastardos” e “legítimos”). Ao final proponho alguns entendimentos sobre o parentesco baniwa a partir do modo como ele é constituído em uma das fronteiras do seu campo: na relação com os brancos
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