Entre a vida e a morte: David Webster (1945-1989), ativismo e antropologia na África Austral

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5380/cra.v26i2.99122

Resumo

Este artigo examina a vida e a obra do antropólogo e ativista sul-africano David Webster, destacando as tensões entre a prática da antropologia acadêmica e o ativismo político em um contexto de repressão. Reconhecido como um dos mais promissores antropólogos da África do Sul durante o regime do apartheid, Webster teve sua carreira interrompida tragicamente com seu assassinato em 1989. Este evento, um entre os muitos acontecimentos violentos dos últimos anos do regime segregacionista, estimulou na década seguinte debates sobre o papel da antropologia em tempos de opressão política e desafios éticos. Por meio de uma análise biográfica, do mapeamento das repercussões sobre sua morte, da avaliação crítica de sua tese de doutorado – publicada postumamente em português –, o artigo explora como sua trajetória acadêmica e política foi interpretada na comunidade antropológica e como sua obra continua relevante para compreender questões atuais. Argumenta-se que a reavaliação de sua trajetória contribui para a história da antropologia, ao abordar eventos críticos às vezes marginalizados no campo. Adicionalmente, analisa-se como o renascimento de sua pesquisa sobre a população chope oferece novas possibilidades em áreas específicas da disciplina, como no caso de pesquisas no sul de Moçambique, onde seu legado permanece especialmente significativo.

Biografia do Autor

João de Regina Maris dos Santos Cassalho, Universidade Estadual de Campinas. Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social.

João De Regina é doutorando e mestre em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas.  Atualmente, participa do Projeto Historiografia da Antropologia coordenado por Luís Felipe Sobral e do Centro de Estudo de Migrações Internacionais coordenado por Omar Ribeiro Thomaz, sendo financiado com bolsa Fapesp Processo N 2022/08515-9. Desenvolve pesquisas sobre história e historiografia da antropologia na África Austral, com foco nas relações entre antropologia e política.

Sara Morais, Universidade de Brasília. Departamento de Antropologia.

Sara Morais é professora do Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília (UnB). Foi técnica em antropologia do IPHAN (2013-2025) e pesquisadora de pós-doutorado na Unicamp com bolsa Fapesp (2022-2025). Tem desenvolvido pesquisas sobre processos de construção nacionais e de patrimonialização em países da África Austral e publicado artigos e livros nas áreas de etnologia africana e patrimônio cultural. Autora de O Palco e o Mato: o lugar das timbila no projeto de construção da nação em Moçambique (2024), editado pelo selo ABA Publicações em parceria com a Editora Telha. É coordenadora do Akalela - Laboratório de Antropologia dos Processos de Patrimonialização e Políticas da Cultura.

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Publicado

2026-06-03

Como Citar

Cassalho, J. de R. M. dos S., & Morais, S. (2026). Entre a vida e a morte: David Webster (1945-1989), ativismo e antropologia na África Austral. Campos - Revista De Antropologia, 26(2). https://doi.org/10.5380/cra.v26i2.99122

Edição

Seção

Dossiê