Chamada para dossiê
A Questão Palestina e a contemporaneidade: abordagens possíveis e necessárias
Organizadores:
Fábio Bacila Sahd (DEHIS/UFPR)
Bárbara Caramuru Teles (Museu de Arqueologia e Etnologia/UFPR)
Refletindo sobre a condição de seu povo, o intelectual palestino Edward Said constatou a dificuldade de ser “vítima das vítimas de outrora”, com as abordagens críticas da Questão Palestina ora silenciadas, ora abertamente perseguidas, inclusive em meios universitários. Estes apontamentos já são relativamente antigos, remontando aos anos 1960 e 1970. Mais recentemente, são constatáveis retrocessos nesta questão, como consta inclusive em documentação produzida pelo sistema ONU. Tanto a Relatoria Especial sobre Formas Contemporâneas de Racismo, quanto a Comissão Internacional Independente de Inquérito para os Territórios Palestinos Ocupados e Israel censuraram a definição abrangente, ambígua e politicamente instrumentalizada de antissemitismo feita pela Aliança Internacional pela Memória do Holocausto (IHRA), que tem servido para perseguir críticos das políticas israelenses, inclusive fundamentando processos judiciais. Deste modo, enquanto segue se avolumando no sistema ONU e fora dele denúncias de que o Estado de Israel pratica crimes contra a humanidade, como perseguição, apartheid e genocídio, a ideologia (o sionismo) e sua consumação (o Estado de Israel) perdem sua especificidade histórica e são blindados das críticas.
Por todas as suas implicações, o debate sobre a Palestina/Israel é central para quem se dedica aos estudos da contemporaneidade, possibilitando pensar diversas questões interseccionadas que propomos aqui, de forma breve, com o intuito de fomentar novas análises. Uma abordagem possível é repensar questões oriundas da Questão Judaica, como a pouquíssima debatidíssima ligação e aliança tática entre antissemitismo e sionismo, algo que seu “pai fundador”, Theodor Herzl, já previra no panfleto “O Estado Judeu”. Igualmente, a aproximação crítica do tema propicia um enriquecimento do campo mais recente dos estudos decoloniais e anticoloniais, lembrando que em “A Questão Palestina” Said já fundamentara devidamente suas conexões com as demais causas terceiro-mundistas, estando no cerne deste alinhamento internacional tanto a luta pela libertação da Palestina quanto pelo fim do regime de apartheid na África do Sul. Aliás, reside nesta relação outra possibilidade de estudo: as conexões internacionais e/ou os paralelos entre o regime da África setentrional, o imperialismo português e o colonialismo sionista, tema que consta tanto em resoluções da antiga Organização para a Unidade Africana quanto da Assembleia Geral da ONU. A pacificação da tese de que o Estado de Israel mantém um regime de apartação, inclusive pela Corte Internacional de Justiça, com o caso geralmente sendo remontado não ao início da ocupação de Gaza e da Cisjordânia, em 1967, mas a sua própria fundação como Estado judeu (logo, não de todos os seus cidadãos), em 1948, abre outra oportunidade investigativa. No caso, as comparações com o regime sul-africano, já havendo significativas produções acadêmicas neste sentido, envolvendo autores africanos, palestinos, israelenses e internacionais, em obras individuais ou coletivas.
Outro desdobramento possível é no campo da educação, no qual uma possibilidade, senão necessidade, é inserir o debate sobre Palestina/Israel no campo da educação em relações étnico-raciais, desconstruindo estigmas e positivando as formas de resistência à racialização promovida pelos sionismos, que incorrem em práticas discriminatórias com evidentes paralelos com àquelas vivenciadas em terras brasileiras pelas populações afro-brasileiras e indígenas. Abordagem possível, conectada e necessária é sobre a trajetória da presença e da ausência de estudos sobre Palestina/Israel em cursos das humanidades, bem como em currículos de cursos superiores. Para além dos estudos culturais, com as produções palestino-israelenses ou sobre o caso ganhando ainda mais notoriedade nos tempos atuais, ainda outra possibilidade reside no campo das identidades e diásporas, já havendo uma significativa produção dedicada à palestinidade, inclusive no Brasil e na América Latina.
Igualmente oportunas são as reflexões do campo específico do antissionismo, que vem buscando compreender, dentre outras coisas, a constituição de uma oposição judaica ao sionismo, entendendo como se forma esta identificação política cada vez mais presente nos espaços públicos de vários países a partir de experiências nacionais distintas. Inclusive está em processo de estruturação um banco reunindo estes depoimentos, gradativamente disponibilizados ao público por meio do canal do Museu da Igualdade, na plataforma Youtube.
Movimentos de solidariedade à Palestina, que proliferaram nos últimos anos, constituem-se em outro objeto possível. Na contramão, também cabe explorar melhor as conexões entre os sionismos e a extrema-direita, que estão longe de se limitar a um casamento de fundamentalismos, figurando a etnocracia israelense como modelo para muitos partidos neofascistas ou neopopulistas mundo afora. Daí decorre outra necessidade, que é compreender as relações entre o sistema ONU e a Questão Palestina, mais especificamente inquirir a preocupação manifestada pelo ex-relator especial designado pelo Conselho de Direitos Humanos para acompanhar o caso, Richard Falk, de que a continuidade das violações coloca em risco a própria arquitetura internacional protetiva da dignidade humana.
Com a definição da situação mais recente de Gaza como genocídio em vários relatórios, do sistema ONU às principais organizações de direitos humanos (como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch), a Questão Palestina adentrou também na agenda e nos círculos dedicados ao estudo do “crime dos crimes” em suas distintas manifestações. Inclusive, o ocorrido a partir de 2023 nos provoca a reconsiderar a própria fundação de Israel ou catástrofe palestina (Nakba), aprofundando as reflexões entre limpeza étnica e genocídio, possibilitando assim conectar esta experiência com outras similares, como a Bósnia. Decorre daí a possibilidade de se resgatar as reflexões acerca do negacionismo dos crimes nazistas para pensar a versão sionista, algo que inclusive o principal protagonista do debate original, o historiador francês Pierre Vidal-Naquet, já foi costurando ao longo de suas reflexões, embora pouco se diga sobre o tema.
Eis apenas algumas dentre tantas abordagens possíveis e necessárias da Questão Palestina para a compreensão da contemporaneidade. Por muito tempo, quiçá até Gaza recente, o tema não recebeu a devida importância, se é que recebeu alguma, estando excluído de muitos currículos de história contemporânea. Retomando Said, a pauta ficou por muito tempo ignorada, à sombra de outra catástrofe, o Holocausto, que em contrapartida é central, senão fundante, das reflexões sobre a modernidade e a contemporaneidade. Não se trata aqui da proposição de escolhas simplistas nas análises do mundo atual, do tipo abordar A “ou” B, mas da defesa de abordagens inclusivas, no estilo A “e” B”, que possibilitem compreender, dentre outras coisas, porque o sistema ONU vem fracassando de modo retumbante na defesa da vida e da dignidade humana, o que consagra a tese de Zygmunt Bauman e de tantos outros sobre a não exclusividade do Holocausto, à medida em que se constitui em possibilidade latente da modernidade, com o caso nazista concatenando de forma específica vários fatores ordinários e passíveis de rearranjo em outros contextos. Eis outra gama possível de interpretações, utilizando-se conceitos mais abrangentes da filosofia política, como modernidade, necropolítica e afins.
A proposta deste dossiê é justamente compilar distintos estudos sobre a Questão Palestina, em especial aqueles que contribuam para melhor fundamentar a necessidade de se incluir o tópico nas análises do mundo contemporâneo, assegurando que sua maior visibilidade atual não se constitua apenas em um reflexo passageiro do terror gerado por mais um genocídio, voltando ao ostracismo tão logo chegue a vez da próxima catástrofe na linha de produção do lado obscuro da modernidade.
Prazo para envio de textos: 11 de outubro de 2026
