O determinismo racial e geográfico no discurso geopolítico moderno/colonial: por uma geopolítica decolonial

Pedro Diniz Rocha

Resumo


A expansão do sistema moderno/colonial a partir das grandes viagens nos séculos quinze e dezesseis originou a construção de uma diferenciação primeira entre conquistadores e colonizados baseada na ideia de raça. Esta se tornou então elemento fundante e constitutivo de relações de dominação, articulando e cristalizando o poder no espaço geográfico. O objetivo deste artigo, então, é o de analisar teses geopolíticas fundadas inicialmente sobre o prisma do determinismo racial e geográfico em fins do século dezenove e início do século vinte, de forma a compreender se seu discurso de autoridade legitima à época nova expansão colonial e a intensificação da violência e do domínio europeu sobre o globo, tendo em vista que remete a classificação social de agrupamentos humanos a partir da ideia de raça e de seu ambiente geográfico. Em vista disto, será realizada uma breve genealogia do discurso determinista no pensamento ocidental e a análise de sua influência nas teses geopolíticas de Friedrich Ratzel, Ellen Semple e Ellsworth Huntington e de alguns de seus paralelos e contrapontos com a geopolítica francesa, em especial a de Paul Vidal de la Blache. Espera-se a partir deste artigo ampliar o chamado para construção de uma geopolítica subalterna que aponte para as vicissitudes do discurso geopolítico moderno/colonial, responsável por apagar vivências e práticas espaciais produzidas ao sul global


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DOI: http://dx.doi.org/10.5380/cg.v7i3.60794

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