Fazendo parentes entre os Baniwa: reflexões sobre as relações em campo

João Jackson Bezerra Vianna

Resumo


Este artigo apresenta, a partir da minha pesquisa etnográfica entre os Baniwa (língua arawak, Noroeste Amazônico), relações possíveis entre antropólogos e seus anfitriões indígenas. Realizo isso a partir da relação que estabelecemos eu e Júlio Cardoso (83 anos), do clã Awadzoro, meu principal anfitrião. Procuro compreender esta relação além (ou aquém) de um pacto etnográfico (Kopenawa & Albert, 2015), observando-o em acordos contínuos e cotidianos que envolvem a filiação adotiva. Esta relação não pressupõe uma identificação por meio de laços biológicos coincidentes com a ideia euro-americana de consanguinidade, tampouco a compreendo, tal como defende Fausto (2008), enquanto uma filiação incompleta. Trata-se de uma relação que indicia diferentes posições, sempre reversíveis, caracterizando modos dinâmicos de fazer parentes. Para tanto, considerarei o parentesco com sendo analógico (Wagner, 1977) notando como a relação entre antropólogo e anfitriões baniwa pode ser situada em uma cadeia de analogias: empregados indígenas e patrões brancos, pais e filhos bastardos (maapatsika), entre os termos da filiação adotiva e, no limite, da filiação “legítima”. Ao final pretendo alcançar alguns entendimentos sobre o parentesco baniwa ao deslocar o foco sobre como ele é constituído em uma das fronteiras do seu campo: na relação com os brancos.

Palavras-chave


Baniwa; Pacto etnográfico; Trabalho de campo; Filiação adotiva.

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DOI: http://dx.doi.org/10.5380/cra.v20i1.65946

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