Dinâmica sedimentar quaternária em bacia litorânea da Costa Verde (RJ)

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5380/qeg.v17i1.104267

Palavras-chave:

Sistemas fluviais, Datação por radiocarbono, Sedimentação quaternária, Regime climático.

Resumo

A reconstituição da evolução do relevo em regiões de trópicos úmidos, como o sudeste brasileiro, apresenta-se particularmente complexa devido às múltiplas e frequentes mudanças climáticas ocorridas durante o Quaternário, especialmente no Holoceno. A bacia do rio Japuíba (RJ), situada nos contrafortes da Serra da Bocaina, apresenta transição brusca entre relevos abruptos, planícies fluviais e fluviomarinhas. Este estudo buscou reconstituir sua complexa história evolutiva quaternária, devido às frequentes mudanças climáticas holocênicas. A metodologia baseou-se em perfis sedimentológicos detalhados e datação por radiocarbono (14C) de paleossolos preservados em terraços fluviais. Os resultados revelaram uma sucessão deposicional continental, registrando distintas fases de evolução da paisagem. Identificou-se uma fase inicial de intenso entalhamento fluvial, associado a eventos tectônicos neogênicos e sedimentação quaternária. Posteriormente, a evolução passou a ser controlada por oscilações climáticas, onde períodos de clima úmido, com expansão da vegetação e pedogênese ativa (formação de horizontes A orgânicos), alternavam-se com fases mais secas e sazonais. Estas foram marcadas por eventos de enxurrada, que promoveram intensa erosão nas encostas e expressiva sedimentação no fundo do vale, soterrando paleossolos em formação (um deles datado em 2376 ± 71 anos AP). O retorno a condições úmidas concentrou fluxos hídricos, causando novo episódio de incisão e formação do terraço superior (T1). Novos pulsos de regime climático seco desencadearam outro ciclo de agradação, depositando espessos sedimentos, sobre os quais desenvolveu-se um solo datado em 442 ± 57 anos AP. O retorno a condições úmidas estabilizou a paisagem, resultando em um último evento de incisão e formação do terraço inferior (T2). A paisagem da bacia foi, portanto, moldada por ciclos climáticos milenares a centenários, que alternam agradação e pedogênese com episódios de incisão fluvial, demonstrando a intensidade dos mecanismos evolutivos em áreas tropicais úmidas, mesmo em curtos intervalos de tempo no Holoceno.

Biografia do Autor

Fabiana Peres de Freitas, Universidade Federal do Rio de Janeiro

 - 

Telma Mendes da Silva, Programa de Pós-Graduação em Geografia, Instituto de Geociências, Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Possui graduação em Geografia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1986), mestrado em Geografia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1991) e doutorado em Geografia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2002). Atualmente é professora aposentada da Universidade Federal do Rio de Janeiro e professora permanente do Programa de Pós-Graduação em Geografia-IGEO/UFRJ. Tem experiência na área de Geociências, com ênfase em Geomorfologia, atuando principalmente nos seguintes temas: evolução do relevo e de bacias de drenagem, mapeamentos geomorfológicos, geomorfologia do Quaternário e Tectônica, geomorfologia e ensino.

Ricardo Vaz Leite , Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Geologia/UFRJ, Mestre em Geociências pelo Museu Nacional/UFRJ.

Possui graduação em Geologia pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (1982). Atualmente é responsável técnico - Campsondas Poços Artesianos. Tem experiência na área de Engenharia Civil, com ênfase em Geotécnica. Tenho sido Geólogo residente e Chefe de Obras em Investigações Geotécnicas para Barragens no Equador e Argélia. Mestre em Patrimônio Geopaleontógico pelo Museu Nacional, UFRJ. Com ênfase em Geomorfologia e Evolução do Relevo

Fabiana Monteiro de Oliveira, Instituto de Física da Universidade Federal Fluminense, Laboratório de Radiocarbono (LAC).

Atualmente é professora adjunta do departamento de Físico-Química da Universidade federal Fluminense (UFF), coordenadora do laboratório de preparação de amostras do Laboratório de Radiocarbono da UFF (LAC-UFF) e coordenadora do Laboratório de Química Nuclear e Radioquímica (LQNR). Possui graduação em Física pela Universidade Federal Fluminense (2010), possui mestrado em Física também pela Universidade Federal Fluminense (2012). Doutora em Física na UFF com estudos situados no âmbito da Física Nuclear Aplicada (2016). Fez doutorado sanduíche na Universidade da Califórnia em Irvine (2014) e doutorado sanduíche na Universidade de Oxford (2015). Realizou pós-doutorado na UFF e dois períodos de treinamento de curta duração com bolsa da Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA) na Universidade Nacional da Austrália (ANU) (2020) e na Universidade Autônoma de Barcelona (UAB) (2024). Integra a Comissão Local de Extensão e a Comissão de Biossegurança, ambas no Instituto de Química da UFF. Tem participação ativa na comunidade científica, como membro da SBF desde 2011 e foi presidente da comissão organizadora da XXIII Escola de Verão Jorge André Swieca de Física Nuclear Experimental da SBF em 2024. Possui também experiência em produção de materiais didáticos de Física. Seus principais trabalhos estão voltados à datação de radiocarbono usando a técnica de Espectrometria de Massa com Aceleradores (AMS). Nessa linha, tem atuação especialmente centrada nos seguintes temas: Preparação de amostras, orgânicas e inorgânicas, construção e manutenção de sistema de vácuo para purificação das amostras. Além disso, possui ainda um interesse particular por estudos geológicos, ambientais, climáticos e cronológicos, incluindo contribuições diretas para a implementação de laboratórios de preparo de amostras no Brasil (UFBA,CENA,UEL) e na América Latina (Serviço Geológico Colombiano). Desenvolve projetos de extensão dedicados ao fortalecimento da participação feminina na ciência, análises de 14C voltados para desenvolvimento de protocolos para datação de cerâmicas e ossos e em estudos de monitoramento de emissões de combustíveis fósseis no ambiente, contribuindo para a identificação de fontes de carbono e para o entendimento de suas dinâmicas atmosféricas, além de estudos com 210Pb direcionados à quantificação e compreensão dos estoques de carbono em sistemas blue carbon.https://orcid.org/0000-0003-3118-1820

Kita Chaves Damasio Macario , Instituto de Física da Universidade Federal Fluminense, Laboratório de Radiocarbono (LAC)

Cientista do Nosso Estado da FAPERJ, bolsista de produtividade nível 1C do CNPq na área de Geocronologia, professora associada IV do Departamento de Física, ex-diretora (atualmente vice-diretora)do Instituto de Física da Universidade Federal Fluminense, coordena o Laboratório de Radiocarbono (LAC-UFF) desde sua instalação, em 2009. Foi membro da comissão de área de Física Nuclear junto à Sociedade Brasileira de Física. Possui graduação em Física (1995), mestrado em Física Atômica e Molecular (1998) e doutorado em Física Nuclear pela Universidade Federal Fluminense (2003) com estágio na Universidade de Purdue, nos Estados Unidos. Tem experiência nas áreas de Física Nuclear Aplicada, Geocronologia, Zooarqueologia, principalmente voltada para a datação de carbono 14 por espectrometria de massa com aceleradores, traçadores e indicadores geoquímicos. Realizou intercâmbio científico na Universidade de Purdue em 2010 com apoio do CNPq e pós doutorado na Universidade de Oxford no Reino Unido com bolsa da CAPES. Atua como pesquisadora permanente nos programas de pós-graduação em Física e Geoquímica. Possui orientações concluídas nos cursos de Engenharia de Biossistemas, Biologia Marinha e Ambientes Costeiros da UFF, Física e no mestrado profissional em Ensino de Ciências da UFF, além de co-orientação de doutorado na Universidade de Oxford, no Reino Unido.Dentre as pesquisas desenvolvidas recentemente pela pesquisadora destacam-se: o estudo de sítios arqueológicos brasileiros, a utilização de moluscos terrestres como representantes da concentração atmosférica de carbono 14, cálculos de efeito de reservatório marinho na costa do Brasil, cálculos de fração biogênica de combustíveis, análises de carvão para estudo de incêndios naturais na Amazônia e a investigação cronológica de diferentes tipos de solo no Brasil.

Referências

BARRELLA, W., PETRERE JR., M., SMITH, W. S., MONTAG, L.D.A. 2001. As relações entre as matas ciliares, os rios e os peixes. In: RODRIGUES, R.R., LEITÃO FILHO; H.F. (eds.) Matas ciliares: conservação e recuperação. 2.ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo. p.109-122.

CEPERJ. 2019. Mapa Estado do Rio de Janeiro - Regiões de Governo e Municípios. Fundação Centro Estadual de Estatísticas, Pesquisas e Formação de Servidores Públicos do Rio de Janeiro. Disponível em:https://www.ceperj.rj.gov.br/wp-content/uploads/2021/08/Mapa-das-Regioes-de-Governo-e-Municipios-do-Estado-do-Rio-de-Janeiro-2019-CEPERJ.pdf. Acesso em 15 janeiro 2022.

CHRISTOFOLETTI, A. 1980. Geomorfologia. São Paulo: Edgard Blücher. 313p.

GOMEZ, B., JONES, J.P. 2010. Research Methods in Geography. Oxford: Blackwell Publishing Ltda. 458p.

IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Base Cartográfica Contínua do Estado do Rio de Janeiro. 2018. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/geociencias/ cartas-e-mapas/bases-cartograficas-continuas/15807-estados.html?edicao= 16037&t=acesso-ao-produto. Acesso em 20 fevereiro 2021.

LABORATÓRIO DE RADIOCARBONO (LAC – UFF) - Instituto de Física. Disponível em: http://www.uff.br/ ?q=noticias/16-05-2016/instituto-de-fisica-da-uff-inaugura-laboratório-pioneiro-na-america-latina. Acesso em 22 junho 2021.

LADEIRA, F.S.B.; SANTOS, M. 2005. O uso de paleossolos e perfis de alteração para a identificação e análise de superfícies geomórficas regionais: o caso da Serra de Itaqueri (SP). Revista Brasileira de Geomorfologia, v. 6, n. 2, p.33-42.

LEITE, R.V. 2021. Morfoestratigrafia e Morfotectônica do Setor Noroeste da Bacia do rio Pirapetinga, Resende – RJ. Dissertação de Mestrado em Geologia, Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 150p.

LEOPOLD, L.B., WOLMAN, M.G., MILLER, J.P. 1964. Processos fluviais em geomorfologia. 1. ed. Nova Iorque: Dover Publicações, 538p.

LIMA, W.P., ZAKIA M.J.B. 2000. Hidrologia de matas ciliares. In: RODRIGUES; R.R., LEITÃO FILHO; H.F. (eds.). Matas ciliares: conservação e recuperação. 2.ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, p.33-43.

MANN, M. E., ZHANG, Z., RUTHERFORD, S., BRADLEY, R. S. 2009. Global Signatures and Dynamical Origins of the Little Ice Age and Medieval Climate Anomaly. Science, 326 (5957): 1256–1260.

MATHER, A. E., STOKES, M., WHITFIELD, E. 2017. River terraces and alluvial fans: the case for an integrated Quaternary fluvial archive. Quaternary Science Reviews, 166: 74-90. https://doi.org/10.1016/j.

MELLO, C. L. 1997. Evolução da paisagem e depósitos quaternários no sudeste brasileiro. Revista Brasileira de Geomorfologia, 18(1): 3-21.

MELO, M. S. MORO, R. S.; GUIMARÃES, G. B.; SANTOS, G. J. C.; PEREIRA, E. R.; BOGGIANI, P. C.; PESSENDA, L. C. R. 2003. Sedimentação quaternária no espaço urbano de Ponta Grossa, PR. Revista Geociências, 22(1): 33-42.

NOVELLO, V.F., CRUZ, F.W., MOQUEST, J.S., VUILLE, M., PAULA, M.S., NUNES, D. 2018. Dois milênios de Atlântico Sul Reconstrução da variabilidade da zona de convergência construído a partir de proxies isotópicos. Cartas de Pesquisa Geofísica, 45:5045–5051. https://doi.org/10.1029/ 2017GL076838.

NOWATZKI, C.H. 2005. Fundamentos de geologia arqueológica. Núcleo de Estudos e pesquisas em geologia arqueológica-NEPGEA, São Leopoldo-RS, 61p.

PASSOS, A.S., DIAS, F.F., SANTOS, P.R.A., BARROS, S.R.S., SOUZA, C.R.G., BERNARDINO, D., ARAUJO, J.C., VARGAS, R., SANTOS, C.A. 2019. Evaluation of the effects of a possible sea-level rise in Mangaratiba – RJ. Journal of Coastal Conservation. 23:355–366. https://doi.org/10.1007/s11852-018-0665-2.

PAZZAGLIA, F.J. 2013. Fluvial Terraces. Treatise on Geomorphology, 9:379-412. http://dx.doi.org/ 10.1016/B978-0-12-374739-6.00248-7. Acesso em 15 março 2021.

RICCOMINI, C., GROHMANN, C.H., SANT’ANNA, L.G., HIRUMA, S.T. 2010. A Captura das Cabeceiras do rio Tietê pelo rio Paraíba do Sul. In: MONDENSEI-GAUTTIERI, M. C., BARTORELLI, A., MANTESSO-NETO, V., CARNEIRO, C. Dal Ré, LISBOA, M.B.A.L. 2010. A Obra de Aziz Nacib Ab’Sáber. São Paulo: BECA, p. 157-169.

SELLEY, R.C. 1968. A Classification of paleocurrent models. The Journal of Geology, 76(1):99-110.

SEMMEL, A. 1989. Palaeopedology and geomorphology: examples from the western part of Central Europe. Catena, Suppl. 16: 143-162. Cremlingen. Disponível em: https://www.cabidigitallibrary.org/doi/full/10.5555/19911959678. Acesso em 06 setembro 2024.

SILVA, S.L.S. 2010. Extração de areia na região metropolitana do Rio de Janeiro - Distribuição espacial e parâmetros de análise na indicação de áreas produtoras. Dissertação de Mestrado em Geografia, Programa de Pós-Graduação em Geografia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 111p.

SILVA, T.M. 2002. A estruturação geomorfológica do Planalto Atlântico no Estado do Rio de Janeiro. Tese de Doutorado em Geografia, Programa de Pós-Graduação em Geografia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 265p.

SILVA, T.M., PAES, T.V. 2018. Parâmetros morfométricos aplicados a análise tectono-erosiva em bacias de drenagem. Revista GeoUERJ, 33:01-26.

SOARES, E.P. 2006. Caracterização da precipitação na região de Angra dos Reis e a sua relação com a ocorrência de deslizamentos de encostas. Dissertação de Mestrado em Engenharia Civil, Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (COPPE), Universidade Federal do Rio de Janeiro, 145p.

SOUZA, J. R., AZEVEDO SOBRINHO, J. M. 2015. Beachrocks em Ubatuba (SP) e variações do nível do mar em depósitos praiais holocênicos. Revista Brasileira de Geomorfologia, 16(3):321-338.

SUGUIO, K. 1999. Geologia do quaternário e mudanças ambientais. São Paulo: Oficina de Textos, 308p.

SUMMERFIELD, M.A. 1991. Global Geomorphology. New York: John Wiley e Sons. 537p.

Downloads

Publicado

2026-08-29

Como Citar

Peres de Freitas, F., Mendes da Silva, T., Vaz Leite , R., Monteiro de Oliveira, F., & Chaves Damasio Macario , K. (2026). Dinâmica sedimentar quaternária em bacia litorânea da Costa Verde (RJ). Quaternary and Environmental Geosciences, 17(1). https://doi.org/10.5380/qeg.v17i1.104267

Edição

Seção

Artigos