Reconsiderando a Revolução Copernicana: unicidade e unidade do objeto de conhecimento em Kant
DOI:
https://doi.org/10.5380/sk.v23i3.101435Palavras-chave:
Kant, Revolução Copernicana, objeto de conhecimento, identidade qualitativa, identidade numéricaResumo
No prefácio à segunda edição da Crítica da razão pura, Kant apresenta sua “revolução no modo de pensar” por meio de uma analogia com o tratamento copernicano do aparente movimento irregular de planetas do sistema solar em termos da composição do movimento real desses planetas com o movimento da Terra. O emprego desta analogia culminou por ensejar uma matriz interpretativa da filosofia kantiana a qual pretende que os aspectos observáveis dos objetos sejam funções de aspectos reais tanto dos objetos em si quanto dos sujeitos cognoscentes. Tal matriz, sumarizada na concepção de que a mente impõe certos aspectos ou propriedades aos objetos, estabelece, em geral, que: havendo certas condições ou meios que são necessários para a apreensão ou construção de objetos na sensibilidade e sendo as coisas-enquanto-apreendidas engendradas no próprio processo de apreensão, a existência destas últimas dever-se-á, ao menos em parte, ao nosso modo de conhecê-las. A remissão à assim chamada “revolução copernicana”, contudo, constitui o ponto culminante das considerações kantianas atinentes ao modo como diferentes disciplinas alcançaram o estatuto de ciência, visando a apresentação de certas condições gerais cuja satisfação seria obrigatória à transformação de toda e qualquer disciplina em ciência. Não sendo em si necessárias, mas apenas necessária para tal fim, concerniriam ao direito de reclamar-se a posse do conhecimento e não a sua constituição de facto. Tais condições, ou imperativos da cientificidade em geral, responderiam pelas condições de identidade dos objetos enquanto objetos de uma disciplina científica, correspondendo, a sua adoção, à passagem, pode-se dizer, do conceito de objeto simpliciter (caracterizado pela interdependência entre sua unicidade, ou identidade qualitativa, e sua unidade, ou identidade numérica) para o conceito de objeto de uma ciência ou, apresentado na forma pela qual é recorrente na obra kantiana, objeto de conhecimento. Neste trabalho, enfocando-se particularmente o tema da unicidade do objeto possível de conhecimento, procurar-se-á expor algumas das alterações às quais deve se sujeitar a formulação da noção de objeto de conhecimento, bem como conectá-las à estrutura argumentativa da Crítica da razão pura.
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