INTOLERÂNCIA RELIGIOSA E A DEMONIZAÇÃO DE RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA NA “PANDEMÔNIA”

Maycon Rodrigo da Silveira Torres, Natasha Martins

Resumo


Identifica-se o racismo como problema estrutural da sociedade ao cotejar os casos de violência e preconceito contra as religiões de matrizes africanas no Brasil, O trabalho analisa a intolerância religiosa como reflexo do processo de colonização do país que ainda reflete no comportamento fenomenológico da atualidade pelo processo de demonização de determinadas entidades. Exu é uma das figuras que melhor representa o afastamento imposto sobre as culturas africanas, o que inclusive condiciona sua incompreensão por parte da população brasileira, predominante negra. A demonização desta divindade africana em específico, retrata heranças da moralidade e medos europeus estimulados durante a Idade Média, ligados principalmente à doenças e à sexualidade. Atributos pejorativos a Exu, como “Exu Corona” ou “Pandemônia”, indicam processo de demonização de divindades de religião de matriz africana como forma de canalizar angústias sociais para ganhos próprios. O processo de educação religiosa pode ser importante meio de transformação social pela problematização do contraste entre essência e aparência associados a Exu como forma de resistência. 



Palavras-chave


Exu. Intolerância. Demônio. Candomblé.

Texto completo:

PDF

Referências


ALMEIDA, Marco A. B.; SANCHEZ, Livia P. Implementação da Lei 10.639/2003 - competências, habilidades e pesquisas para a transformação social. Pro-Posições, Campinas, v. 28, n. 1, p. 55-80, Apr. 2017. DOI: https://doi.org/10.1590/1980-6248-2015-0141.

ALVARENGA, M. J. S. O Candomblé Começa na Cozinha: Alimentação, Aprendizado e Transformação. Revista Habitus-Revista do Instituto Goiano de Pré-História e Antropologia, Goiânia, v. 16, n. 2, p. 275-292, 2019. DOI: http://dx.doi.org/10.18224/hab.v16i2.5718

BATISTA, B. M.; SOUZA, F. A.; PLACERES, G. Aspectos Da Intolerância Religiosa No Brasil: Dominância Política, Social e Institucional Cristã Frente à Umbanda e o Candomblé. Labirinto, Porto Velho, v. 26, n. 2, p. 123-141, 2017. DOI: https://doi.org/10.47209/1519-6674.v.26.n.2.p.122-141

BALLOUSSIER, Anna Virginia. 'Exu corona' e terreiro queimado escancaram intolerância religiosa na pandemia. Folha de São Paulo, Rio de Janeiro, 04 de nov. 2020. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/11/exu-corona-e-terreiro-queimado-escancaram-intolerancia-religiosa-na-pandemia.shtml

BRITTO, C. C.; AGUIAR, F. J. F.; AGUIAR, J. C. T. M. Encruzilhadas museológicas: ressonâncias da presença/ausência de Exu no Museu Afro-Brasileiro de Sergipe. Anais do Museu Paulista, São Paulo, v. 27, e20, 2019. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/1982-02672019v27e20

CECCHETTI, E; OLIVEIRA, L. B. Diversidade religiosa e direitos humanos: conhecer, respeitar e conviver. Revista Interdisciplinar de Direitos Humanos, Bauru, v. 4, p. 181-198, 2015.

CHIAVENATO, Júlio José. O Negro do Brasil: Da Senzala à abolição. Ed. Moderna, São Paulo, 1999.

ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. Trad. Rogério Fernandes. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

ELTIS, David; BEHRENDT, Stephen D.; RICHARDSON, David. A participação dos países da Europa e das Américas no tráfico transatlântico de escravos: novas evidências. Afro-Ásia, 2000.

FERNANDES, Nathalia Vince Esgalha. A raiz do pensamento colonial na intolerância religiosa contra religiões de matriz africana. Revista Calundu, Brasília, v. 1, n.1, p. 117-136, 2017. DOI: https://doi.org/10.26512/revistacalundu.v1i1.7627

GEERTZ, Clifford. A interpretação das Culturas. 1. ed. Rio de Janeiro: LTC — Livros Técnicos e Científicos Editora S.A., 1989.

HEIDEGGER, M. O ser e o tempo. Petrópolis: Vozes, 2004.

HEIDEGGER, M. (1959). O caminho da linguagem. (5ª ed). Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.

HELFEMSTELLER, Carla Jeane; OLIVEIRA, Liziane Paixão Silva; DE LIMA, Kellen Josephine Muniz. Sacrifício ritual de animais não-humanos nas liturgias religiosas de matriz africana:“medo do feitiço” e intolerância religiosa na pauta legislativa. Revista Brasileira de Direito Animal, Salvador, v. 11, n. 22, p. 53-82, 2016. DOI: http://dx.doi.org/10.9771/rbda.v11i22.17665

LEISTNER, R. M.; AGUIAR, A. T. A Polêmica Da Sacralização De Animais Nos Terreiros Afro-brasileiros E Os Percursos Da Laicidade No Brasil. Revista Relegens Thréskeia, Curitiba, v. 9, n. 2, p. 113-138, 2020. DOI: http://dx.doi.org/10.5380/rt.v9i2.75593

LEITE, Skarllett Andressa Otto Leite. De Guardião a Demônio: A representação da Entidade Exu na Umbanda Espiritualista. 2018. Trabalho de Conclusão de Curso em Antropologia. Instituto Americano de Arte Cultura e História, Universidade Federal da Integração Latino-Americana Foz do Iguaçu, 2018.

NOGUEIRA, Léo Carrer. Da África para o Brasil, de Orixá a Egum: As Ressignificações de Exu no Discurso Umbandista, 2017. Tese (Doutorado em História) - Faculdade de História. Universidade Federal de Goiás, Goiânia.

MACHADO, J. de Assunção. Exu e Hermes: Um xirê intercultural?, 2016. Dissertação (Mestrado em Educação) - Instituto de Educação Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica.

OLIVEIRA, S. Psicanálise e Umbanda: A Demonização Do Exu Como Interdição Simbólica e Intolerância Religiosa. Revista Brasileira de História das Religiões, Maringá, v. 3, n. 8, p. 33-43, 2010. DOI: https://doi.org/10.4025/rbhranpuh.v3i8.30345

PRANDI, R. Exu, de mensageiro a diabo. Sincretismo católico e demonização do orixá Exu. Revista USP, São Paulo, v. 50, 46-63, 2001.

PRANDI, R. Mitologia dos Orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

PINTO, T. D ; FREITAS, B. T. D. UMBANDA: Guia e Ritual para Organização de Terreiros. 7. ed. Rio de Janeiro: Eco, 1972..

SARAIVA, L. A. F. De Vodum a Caboclo: Trajetória de Legbá no Terreiro de Tambor de Mina e Tereco. Revista Calundu, Brasília, v. 1, n. 1, p. 7-20, jan./2017.

SILVA, N. C. F. A Ineficiência de Direito Penal na Proteção das Religiões de Matrizes Africanas Contra Crimes de Intolerância Religiosa. 2018. Trabalho de Conclusão de Curso em Direito – Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais, Centro Universitário De Brasília, Brasília.

SILVA, Pierre Passamai. Para Além da Demonização do Guardião Exu: Elogio ao Hibridismo Pós-Colonial em Processo de Resistências nas Religiões Afro e Brasileiras. 2017. Trabalho de Conclusão de Curso em História - Unidade Acadêmica De Humanidades, Ciências e Educação, Universidade do Extremo Sul Catarinense, Criciúma.

SILVA, Gonçalves da Silva. Neopentecostalismo e Religiões Afro-Brasileiras: Significados do Ataque aos Símbolos da Herança Religiosa Africana no Brasil Contemporâneo. Mana, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 207-236, 2007. DOI: 10.1590/S0104-93132007000100008.

SILVEIRA, N. A.; BARROS, N. F.; RODRIGUES, B. S.; SILVA, C. C. A perspectiva fenomenológica aplicada ao estudo de caso–uma experiência de dor e sofrimento. Brazilian Journal of Health Review, Curitiba, v. 3, n. 6), 15826-15837, 2020. DOI:10.34119/bjhrv3n6-017

VERGER, P. F. Orixás. 1. ed. Salvador: Fundação Pierre Verger, 2018.




DOI: http://dx.doi.org/10.5380/rt.v10i1.79296