“Isto não é uma taberna, é um casino!”: o curso de pagador de banca

João Gomes

Resumo


Durante longas décadas, os casinos em Portugal permaneceram universos sociais e laborais hermeticamente fechados. O Estado impôs, desde cedo, o seu isolamento social, procurando, igualmente, restringir o acesso dos jogadores aos seus espaços. Esta selectividade e exclusivismo foram, prontamente, apropriados pelos trabalhadores do sector, ou seja, eles não hesitaram em mobilizar práticas de “oclusão social” que visavam restringir o acesso à categoria profissional de pagador de banca (dealer/croupier), preservar a raridade do seu título e impedir a vulgarização das suas competências profissionais. Este artigo, baseado numa investigação etnográfica, procura analisar as dinâmicas de constituição do “habitus” profissional dos pagadores de banca de casino, nomeadamente, pretende examinar os métodos de inculcação, incorporação e apropriação da técnica e atitude correctas. O artigo procura demonstrar, igualmente, como essa inculcação, incorporação e apropriação representam, simultaneamente, um ajustamento a todo um universo material e simbólico, isto é, a todo um saber ser e saber estar.


Palavras-chave


Casinos; ensino; pagadores de banca; técnica; atitude

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DOI: http://dx.doi.org/10.5380/cra.v21i1.73062

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