Abrandar os corações para fugir dos castigos:

os feitiços da preta Joana Maria nas malhas inquisitoriais do Grão-Pará (1763-1769)

Autores

  • Juliane De Miranda Souza UFPA Universidade Federal do Pará

DOI:

https://doi.org/10.5380/clio.v15i2.98995

Palavras-chave:

inquisição, Perseguição Religiosa, Práticas mágico-religiosas, Grão-Pará

Resumo

Durante a visita do Santo Ofício ao Grão-Pará, práticas divergentes foram reprimidas, como no caso de Joana Maria, uma mulher preta escravizada cujas atividades de proteção espiritual e física chamaram a atenção da Inquisição. Seu processo revela crenças, resistências e tensões entre práticas populares e o poder da Igreja e do Estado. Com base na micro-história e no paradigma indiciário, analisam-se suas crenças, rituais e práticas cotidianas para compreender espaços de autonomia feminina à margem da sociedade. Argumenta-se que Joana e outras mulheres criaram espaços de poder a partir de redes de sociabilidades multiétnicas que visavam garantir melhores condições de vida material e a sobrevivência a um novo dia. 

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Publicado

06-01-2026

Como Citar

De Miranda Souza, J. (2026). Abrandar os corações para fugir dos castigos:: os feitiços da preta Joana Maria nas malhas inquisitoriais do Grão-Pará (1763-1769). Revista Cadernos De Clio, 15(2). https://doi.org/10.5380/clio.v15i2.98995

Edição

Seção

Artigos